Guanyin: O Deus que se Tornou Deusa (E Por Que Ninguém Se Importa)

A Maior Transição de Gênero na História Religiosa

Avalokiteshvara é um bodhisattva — um ser que alcançou a iluminação, mas retarda a entrada no nirvana para ajudar todos os seres sencientes. No budismo indiano, Avalokiteshvara é masculino. No budismo tibetano, o Dalai Lama é considerado uma encarnação de Avalokiteshvara — também masculino.

Na China, Avalokiteshvara se tornou Guanyin (观音, Guānyīn) — e Guanyin é feminina. Não de forma ambígua. Não às vezes feminina. De forma inequívoca, universal e icônica. Ela é retratada como uma bela mulher em vestes brancas, segurando um vaso de água pura e um ramo de salgueiro.

Essa transformação ocorreu gradualmente entre os séculos V e XII d.C., e revela mais sobre a religião chinesa do que qualquer tratado teológico.

Por Que a Mudança Aconteceu

Diversos fatores impulsionaram a feminização de Guanyin:

A compaixão é codificada como feminina na cultura chinesa. O atributo que define Guanyin é a compaixão (慈悲, cíbēi). Na lógica cultural chinesa, a compaixão suprema é uma qualidade materna. Uma deidade cuja função principal é ouvir os lamentos dos que sofrem e responder com misericórdia se encaixa naturalmente no arquétipo da mãe.

As mulheres precisavam de uma deidade. A religião popular chinesa era dominada por deidades masculinas. As mulheres — que realizavam a maioria das orações — queriam uma deidade que entendesse suas preocupações específicas: o parto, a saúde dos filhos, a harmonia familiar. Guanyin preencheu essa lacuna.

A lenda de Miaoshan. Uma história de origem chinesa emergiu na qual Guanyin era originalmente a Princesa Miaoshan, que desafiou o desejo de seu pai para que ela se casasse e, em vez disso, buscou a prática budista. Quando seu pai ficou doente, ela sacrificou seus próprios olhos e braços para curá-lo. Essa história deu a Guanyin uma origem chinesa que tornava as origens indianas irrelevantes.

O que Guanyin Faz

Guanyin é a deidade à qual os chineses mais frequentemente oram. Seu portfólio inclui:

Fertilidade. Mulheres que desejam ter filhos oram a Guanyin. A expressão "送子观音" (sòngzǐ Guānyīn — "Guanyin que envia filhos") refere-se ao seu papel como deidade da fertilidade.

Segurança no mar. Comunidades costeiras adoram Guanyin como protetora de marinheiros e pescadores. Essa função sobrepõe-se à de Mazu (妈祖), outra deidade feminina, e às vezes as duas são confundidas. Em uma nota relacionada: O Deus da Cozinha: O Espião do Céu em Cada Casa Chinesa.

Misericórdia geral. Guanyin responde a qualquer um em situação de dificuldade. O Sutra do Coração diz que chamar seu nome em um momento de perigo trará sua ajuda. Esta é a forma mais democrática de adoração — nenhum ritual é necessário, nenhum sacerdote é necessário, apenas chame seu nome.

Guanyin aparece em templos budistas, templos taoístas e altares domésticos. Ela é adorada por pessoas que se identificam como budistas, taoístas ou "não particularmente religiosas." Ela transcende as fronteiras sectárias de uma maneira que nenhuma outra deidade na religião chinesa faz.

Essa fluidez é característica da religião chinesa em geral. A pergunta ocidental "qual é a sua religião?" não se aplica bem à chinesa.

Sobre o Autor

Especialista em Divindades \u2014 Estudioso das tradições religiosas chinesas.

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